
Depois de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”
José Saramago cria nova polemica com a Igreja Católica
com o seu novíssimo livro.
O Nobel de literatura considerou que "sem a Bíblia seríamos outras pessoas. Provavelmente melhores". "Não percebo como é que a Bíblia se tornou um guia espiritual. Está cheia de horrores, incestos, traições, carnificinas." Referiu ainda que costuma chamar ao livro sagrado dos cristãos "um manual de maus costumes".
"Nós somos manipulados todos os dias. Temos de lutar contra isso. Que a leitura deste livro vos ajude a ver o outro lado." Um conselho do autor, que, garante, não é contra Deus que escreve: "Até porque ele não existe. É contra as religiões." Porque não servem para aproximar as pessoas nem nunca serviram, explica.
Em resposta à acusação da Igreja sobre a sua "ingenuidade confrangedora" sobre a Bíblia respondeu: "Abençoada ingenuidade que me permitiu ler o que lá está e não qualquer operação de prestidigitação, dessas em que a exegese é pródiga, forçando as palavras a dizerem apenas o que interessa à Igreja. Leio e falo sobre o que leio. Para mistificações não contem comigo." Em 'Caim', José Saramago se volta aos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio. Num itinerário heterodoxo, Saramago percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura.
trecho do livro “CAÍM”
“Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de rugidos e mugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canonica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. “
Nota: a falta de maiúsculas nos nomes próprios, a começar pelo do roteirista mor da trama, Deus, foi decisão do autor que optou por capitalizar um único nome em todo o livro: o de sua esposa Pilar del Río, Na dedicatória, Saramago escreve: “A Pilar, como se dissesse água”.
Saramago é conhecido por seu ateísmo. Dias atrás chamou o Papa Bento 16 de “cínico” em um colóquio em Roma.

Língua e Livre Arbítrio, definitivamente, deveriam ser conquistados......
ResponderExcluirEssa parte do amo-te Eva é até explicável...Levou um pé da Lilith e um chifrão do Samael (reza a lenda que Caim é filho do adultério de Eva com Samael.
No fim, concordo com o Saramago: A Bíblia é que nem o Direito: Só dá idéia de como fazer o errado.